Em “Na Sombra do Monte Abiegno”, Pessoa recorria aos tópicos da montanha e da chamada:
Chamou uma voz do monte,Não sei se chamou por mim,Sei que está alli defronteE chama sem nenhum fim.
Se neste caso o poeta põe mais o acento sobre a exclusividade da chamada, que se dirige apenas a ele («O pastor passa: / Não ouviu chamar assim. / Porque é que só eu a ouço / E sinto na alma que falla / A qualquer cousa que posso / E meu poder não eguala?»), na segunda versão do «Monte Abiegno» o centro do poema é a impossibilidade, acompanhada pelo desejo e pela fragilidade de um passado que se mostra como desperdiçado:
Quanto fora amor ou vida,Atrás de mim o deixei,Quanto fora desejá-los,Porque esqueci não lembrei.À sombra do Monte AbiegnoRepousei porque abdiquei.
O motivo do repouso sugere uma imobilidade que não é apenas física: a abdicação uma renúncia à ambição do caminho espiritual, enquanto a própria lembrança do passado é um olhar desencantado sobre o fracasso dos sonhos. Quer no poema que tem o seu princípio na enciclopédia, quer no poema sobre o Monte Abiegno, o que mais sobressai é o tema do abandono e da derrota da vontade: isto tudo em relação à ambição de uma iniciação espiritual – o que nos levaria a pensar que de facto Pessoa não chegou (por medo, talvez, como sugere no poema inspirado na enciclopédia maçónica) a empreender um caminho iniciático, pelo menos não por via oficial.
Rita Catania Marrone
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