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ter, 24 de Novembro

terça-feira, 22 de setembro de 2026

VERSOS LIVROS

PESSOA – o caminho iniciático?

Em “Na Sombra do Monte Abiegno”, Pessoa recorria aos tópicos da montanha e da chamada:

Chamou uma voz do monte,
Não sei se chamou por mim,
Sei que está alli defronte
E chama sem nenhum fim.

Se neste caso o poeta põe mais o acento sobre a exclusividade da chamada, que se dirige apenas a ele («O pastor passa: / Não ouviu chamar assim. / Porque é que só eu a ouço / E sinto na alma que falla / A qualquer cousa que posso / E meu poder não eguala?»), na segunda versão do «Monte Abiegno» o centro do poema é a impossibilidade, acompanhada pelo desejo e pela fragilidade de um passado que se mostra como desperdiçado: 

Quanto fora amor ou vida,
Atrás de mim o deixei,
Quanto fora desejá-los,
Porque esqueci não lembrei.
À sombra do Monte Abiegno
Repousei porque abdiquei.

 O motivo do repouso sugere uma imobilidade que não é apenas física: a abdicação uma renúncia à ambição do caminho espiritual, enquanto a própria lembrança do passado é um olhar desencantado sobre o fracasso dos sonhos. Quer no poema que tem o seu princípio na enciclopédia, quer no poema sobre o Monte Abiegno, o que mais sobressai é o tema do abandono e da derrota da vontade: isto tudo em relação à ambição de uma iniciação espiritual – o que nos levaria a pensar que de facto Pessoa não chegou (por medo, talvez, como sugere no poema inspirado na enciclopédia maçónica) a empreender um caminho iniciático, pelo menos não por via oficial. 

Rita Catania Marrone

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