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quarta-feira, 25 de julho de 2018

JULGAM QUE NASCI ONTEM?

CONTO

Estou cá com uma fome – queixou-se o camelo.

- Também eu! Até comia um turista, daqueles bem apetitosos – respondeu o lobo.

- Até podia ser um daqueles viajantes maltrapilhos, não me importava – acrescentou a raposa.

Os três amigos amigos puseram-se a farejar as redondezas, mas tudo o que encontraram foi um pedaço de pão duro.

- Nem dá para partilharmos – disse o camelo.

- Então quem o vai comer? – indagou o lobo.

- O mais velho. É justo, não é? – propôs a raposa.

- Bem, então sou eu, o lobo, pois estive na Arca com Noé.

- É mesmo? – perguntou a raposa. Então isso faz com que tenhas mais ou menos a idade do meu neto. Quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais, criou-me a mim. Eu sou a criatura a quem Ele chamou de raposa.

- Naquele momento, o lobo e a raposa aperceberam-se que o camelo já tinha abocanhado o pedaço de pão e, erguendo o pescoço bem alto por cima das suas cabeças, mastigava-o alegremente.

O camelo olhou para eles, lá em baixo.

- Para criaturas tão pequenas, vocês têm realmente muito que dizer – falava de boca ainda cheia. – Noé, quem diria? Adão e Eva! Quanto tempo é que pensam que demorou para eu ter estas grandes pernas? Julgam que nasci ontem?

Furiosos, a raposa e o lobo andaram à roda do camelo mas nada havia a fazer: não o podiam impedir de comer, nem o podiam magoar.

O camelo engoliu o pão. Fez um ruído como quem chupa os dentes e com um grande “Hmmmmm” aclarou a garganta

In Antologia de “Contos Arrepiantes”, Crossley-Hollanda, Kevin



BORBOLETAS


CONTO


A menina sentou-se no sofá com o seu caderno de trabalhos de casa em cima dos joelhos. “O Poema da Borboleta” escreveu no topo da página, mordiscando a caneta, pensativa. Podia ouvir as batidas da música pop no apartamento de cima, os rapazes a jogarem à bola na rua , o telefone a tocar…

Como era difícil concentrar-se! O tempo ia passando, e a menina aos poucos, começava a ver umas belas palavras coloridas a flutuar ao seu redor. Ergueu a mão, ainda com a caneta e apanhou algumas palavras, colocando-as na sua página branca. E depois mais algumas. Quanto mais palavras apanhava, mais fácil se tornava alcançá – las; eram as melhores palavras do mundo, belas na sua simplicidade, como o são as palavras poéticas.

Na manhã seguinte, a menina preparou-se para ir para a escola. Abriu o seu caderno de trabalhos de casa e folheou-o até à página intitulada “O poema da Borboleta”.

Mas onde estavam as palavras? Tinham todas desaparecido! A menina olhou estupefacta para o seu caderno, virou-o ao contrário, verificando se a página não tinha sido arrancada, e folheou-o outra vez, no caso das palavras terem fugido para outra página…

A menina esfregou os olhos, apertou-os com força e voltou a abri-los. À sua volta, estavam pequenos fragmentos de laranja, turquesa, cor de jasmim e violeta: a rua cinzenta onde vivia tinha sido rapidamente colorida de cores brilhantes com centenas e milhares de borboletas.

In Antologia de “Contos Arrepiantes”, Crossley-Holland, Kevin