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ter, 24 de Novembro
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segunda-feira, 8 de junho de 2015

POEMA DA SEMANA

A Foca


Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.

Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 1 de junho de 2015

POEMA DA SEMANA

Criança

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste,

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

Cecília Meireles

segunda-feira, 25 de maio de 2015

POEMA DA SEMANA

Cãozinho

Eu tenho um cão
muito pequenino
que me cabe na mão
e não é ladino...
Só se põe a correr
se o seu menino
lhe mexer...

Não come carne nem peixe
mesmo que o deixe...
Nem trinca chocolates e bolos
como os cães tolos...
Nem come sopinha
por mais que lha dê...

E não bebe leite
antes que se deite
na sua caminha...
E que coma açorda
ninguém se recorda...
Nem papa farinha...

E sabem porquê?
Ninguém adivinha?

- é que o patetinha
é um cão de corda.


Sidónio Muralha

segunda-feira, 18 de maio de 2015

POEMA DA SEMANA

Caixinha de música

Gilo, grilarim,
Tens um canto azul
Na noite de cetim.

Cigarra, cagarraia,
Tens um canto branco
No dia de cambraia!

Formiga, miga, miga,
Só tu cantas os nadas
Do silêncio do Sol,
Das estrelas caladas...

Matilde Rosa Araújo

segunda-feira, 11 de maio de 2015

POEMA DA SEMANA

Rifão quotidiano


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou uma Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece


Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 4 de maio de 2015

POEMA DA SEMANA

A morte do rato


Quando morreu o rato,
o gato chorava
e chorava tanto
que todos os gatos
não entendiam o pranto
dum gato
pela morte dum rato!!!

E os gatos
perguntaram ao chorão
porque chorava então?!

E aos outros gatos
o gato respondeu:
estava à espera que o rato
crescesse e engordasse
para ficar mais farto.

Tóssan (António Fernando dos Santos)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

POEMA DA SEMANA

Brinquedo


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a uma estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino ao vê-la assim, sorriu
e cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga

segunda-feira, 20 de abril de 2015

POEMA DA SEMANA

Bartolomeu Marinheiro


Era uma vez
um capitão português
chamado Bartolomeu
que venceu
um gigante enorme e antigo.
Bartolomeu, em menino
pequenino,
ia para o pé do mar...

e ficava a olhar
o mar...
E Bartolomeu cismava...
Ó que lindo, ó que lindo,
o mar, e a sua voz profunda e bela!
Uma nuvem no céu, era uma caravela
que novos céus andava descobrindo...

Ó que lindo, os navios,
que vão suspensos entre a água e o céu,
com velas brancas e mastros esguios,
e com bandeiras de todas as cores!
Bartolomeu cismava
porque ouvia
tudo o que o mar contava
e lhe dizia.

Afonso Lopes Vieira (1912)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

POEMA DA SEMANA

A vaca


Vaca eu sou,
vivo no monte
e a todos dou,
com deleite,
a minha fonte de leite.

Quem quiser aceite,
venha-me procurar,
- mas café com leite
eu não posso dar.

Sidónio Muralha

segunda-feira, 6 de abril de 2015

POEMA DA SEMANA

Levava eu um jarrinho 


Levava eu um jarrinho 
Para ir buscar vinho; 
Levava um tostão 
P'ra comprar um pão;
Levava uma fita 
Para ir bonita. 

Correu atrás 
De mim um rapaz. 
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão, 
Rasgou-se-me a fita... 
Vejam que desdita! 

Se eu não levasse um jarrinho 
Para ir buscar vinho, 
Nem levasse um tostão
P'ra comprar um pão,
Nem levasse uma fita 
Para ir bonita, 
Nem corresse atrás 
De mim um rapaz 
Para ver o que eu fazia, 
Nada disto acontecia. 

Fernando Pessoa

segunda-feira, 16 de março de 2015

POEMA DA SEMANA



Achado


Ia pela mata
Só comigo, à toa,
Longe de encontrar
Cousa má nem boa.

À sombra avistei
Que linda florinha!
Bela como uns olhos
Ou uma estrelinha.

Quando a quis colher
Ouvi-a chorar:
«Vais então cortar-me
Pra me ver's murchar?»

Raízes e tudo
A arranquei assim,
Pra casa a levei,
Pula no jardim.

Plantei-a outra vez
Em sítio de amores:
E agora dá ramos,
Mais folhas, mais flores


Johann Wolfgang Goethe

Tradução de Paulo Quintela

segunda-feira, 9 de março de 2015

POEMA DA SEMANA

Balada da neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho… 


Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança… 


E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração. 


Augusto Gil 

segunda-feira, 2 de março de 2015

POEMA DA SEMANA

O galo e a pérola


Um galo viu, perdida,
Uma pérola polida
Que abandonou aos pardais...
«Admiro – disse – o seu brilho,
Mas se fosse um grão de milho
Para mim valia mais!»


Também um pobre ignorante
Que herdara um livro importante
O foi vender ao livreiro,
dizendo com os seus botões:
«Mais me valem dez tostões
Que ao menos sempre é dinheiro!»

João de Deus

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

POEMA DA SEMANA

Timidez


O bicho-de-conta
faz de conta faz
que é cabeça tonta

mas lá bem no fundo
não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca
logo se disfarça
veste-se de bola.

Por mais que se faça
não se desenrola.

Lá dentro escondendo
patinhas e rosto
é todo um segredo:

Se eu fosse menino,
comigo brincava
sem medo, sem medo.

Maria Alberta Menéres

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

POEMA DA SEMANA

Pescador da barca bela

Pescador da barca bela, 
Onde vais pescar com ela, 
Que é tão bela, 
Ó pescador? 

Não vês que a última estrela 
No céu nublado se vela? 
Colhe a vela, 
Oh pescador! 

Deita o lanço com cautela, 
Que a sereia canta bela ... 
Mas cautela, 
Ó pescador! 

Não se enrede a rede nela, 
Que perdido é remo e vela 
Só de vê-la, 
Oh pescador! 

Pescador da barca bela, 
Ainda é tempo, foge dela, 
Foge dela, 
Oh pescador!

Almeida Garrett

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

POEMA DA SEMANA

Xadrez


É branca a gata gatinha

É branca como farinha.

É preto o gato gatão

É preto como o carvão.

E os filhos, gatos gatinhos,

São todos aos quadradinhos.

Os quadradinhos branquinhos

Fazem lembrar mãe gatinha

Que é branca como a farinha.

Os quadradinhos pretinhos

Fazem lembrar pai gatão

Que é preto como carvão

Se é branca a gata gatinha

E é preto o gato gatão,

Como é que são os gatinhos?

Os gatinhos eles são,

São todos aos quadradinhos.



Sidónio Muralha


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

POEMA DA SEMANA

O papagaio de papel




Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...

Sebastião da Gama

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

POEMA DA SEMANA

Passarinho no sapé


P tem papo
o P tem pé. 
É o P que pia? 
(Piu!) 
Quem é? 
O P não pia: 
O P não é. 
O P só tem papo 
e pé. 
Será o sapo? 
O sapo não é. 
(Piu!) 
É o passarinho
que fez seu ninho 
no sapé. 
Pio com papo. 
Pio com pé. 
Piu-piu-piu: 
Passarinho. 
Passarinho 
no sapé.

Cecília Meireles

domingo, 18 de janeiro de 2015

POEMA DA SEMANA

Branco



A neve que cai do céu
como brancas penas d' asas
já pôs um branco chapéu
no cocuruto das casas.

E sobre a terra com frio
estende um lençol macio.

A neve é da cor da cal,
das pombas do meu pombal
e do sal,
o rei da mesa.
Branco é pureza:
toalha de baptizado,
véu de noivado.

António Manuel Couto Viana

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

POEMA DA SEMANA

Macaquinho do chinês


Um dois três
macaquinho do chinês.

Dois três quatro
vamos todos ao teatro.

Três quatro cinco
já vais ver como é que eu brinco.

Quatro cinco seis
as Marias e os Manéis.

Cinco seis sete
a comer esparguete.

Seis sete oito
no caminho p'rò Magoito.

Sete oito nove
a cavalo numa couve.

Oito nove dez
venha cá Senhor Marquês
está na hora está no mês
para cantarmos outra vez:

um dois três
macaquinho do chinês!

José Fanha