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ter, 24 de Novembro
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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

RECOMEÇO....

Miguel Torga

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças... 



Miguel Torga TORGA, M., Diário XIII. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Poesia


BRINQUEDO




Foi um sonho que eu tive:

Era uma grande estrela de papel,

Um cordel

E um menino de bibe.



O menino tinha lançado a estrela

Com ar de quem semeia uma ilusão;

E a estrela ia subindo, azul e amarela,

Presa pelo cordel à sua mão.



Mas tão alto subiu

Que deixou de ser estrela de papel.

E o menino ao vê-la assim, sorriu

E cortou-lhe o cordel

Miguel Torga

terça-feira, 12 de julho de 2016

POESIA



Lição

Oiço todos os dias,

De manhãzinha,

Um bonito poema 

Cantado por um melro Madrugador.

Um poema de amor 

Singelo e desprendido, 

Que me deixa no ouvido

Envergonhado

A lição virginal do natural,

Que é sempre o mesmo,

e sempre variado.


Miguel Torga
 
in Diário X, 1964 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

POEMA DE MIGUEL TORGA


Nada no mundo se repete.

Nenhuma hora é igual à que passou.

Cada fruto que vem cria e promete

Uma doçura que ninguém provou.


Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

Miguel Torga


Nota: Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha e autor de uma produção literária vasta e variada. Nasceu em S. Martinho de Anta, Vila Real, a 12 de Agosto de 1907, e morreu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

História Antiga


Era uma vez, lá na Judeia, um rei. 

Feio bicho, de resto: 

Uma cara de burro sem cabresto 

E duas grandes tranças. 

A gente olhava, reparava, e via 
Que naquela figura não havia 
Olhos de quem gosta de crianças. 

E, na verdade, assim acontecia. 
Porque um dia, 
O malvado, 
Só por ter o poder de quem é rei 
Por não ter coração 
Sem mais nem menos, 
Mandou matar quantos eram pequenos 
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas, 
Por acaso ou milagre, aconteceu 
Que, num burrinho pela areia fora, 
Fugiu 
Daquelas mãos de sangue um pequenito 
Que o vivo sol da vida acarinhou; 
E bastou 
Esse palmo de sonho 
Para encher este mundo de alegria; 
Para crescer, ser Deus; 
E meter no inferno o tal das tranças, 
Só porque ele não gostava de crianças. 


Miguel Torga, in 'Antologia Poética' 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

POEMA DA SEMANA

Brinquedo


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a uma estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino ao vê-la assim, sorriu
e cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga