Powered by DaysPedia.com
1117am
ter, 24 de Novembro
Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

HISTÓRIA DO SONHO DO PAPAI NOEL DE J. LETRIA


Certa noite, enquanto dormia, o Papai Noel teve um bonito sonho: era véspera de Natal e todos estavam felizes! Ninguém estava sozinho… Todos tinham família e uma casa com a mesa pronta para a ceia de Natal, onde não faltava comida farta e deliciosa. Não havia pobreza, nem ódio, nem guerras. Todos eram amigos e não havia brigas, palavrões, nem má educação… Havia sim, amor, compreensão e carinho entre todos.
As pessoas que se encontravam nas ruas, a caminho de casa, cantarolavam alegremente músicas de Natal, levando os últimos presentes para colocar debaixo do pinheiro. E o Papai Noel não conseguia deixar de sorrir, de tanta felicidade, ao ver o mundo cheio de paz, amor e harmonia!

No entanto, quando o Papai Noel acordou e viu que tudo não passava de um sonho, ficou muito triste. Afinal, só algumas pessoas no mundo eram felizes, capazes de celebrar o Natal em alegria e paz com os seus, de terem um lar, comida, roupa e amor. Perante esta situação, o Papai Noel declarou em voz alta: “terei de continuar a ajudar as crianças e os adultos a terem um Natal realmente feliz! Vou preparar as renas e o meu trenó, para enchê-lo com presentes e distribuí-los esta noite, de modo a que, pelo menos uma vez por ano, haja alegria no coração de todos nós!”.

Então, quando viu os sorrisos das crianças e dos adultos ao verem os seus presentes, o Papai Noel decidiu manter esta tradição. Continua assim, ano após ano, a cumprir a sua tarefa, até que um dia possa ver o seu lindo sonho totalmente concretizado!


No Blogue relembra a "Lenda da vela de Natal" 

Pesquisar neste blogue


ou

 Clica aqui:

segunda-feira, 30 de maio de 2022

MAGIA DAS PALAVRAS E BONECOS EM AÇÃO

BIBLIOTECA PAPINIANO CARLOS

5.ª/6.ª Sessão 

Foi com muito agrado que os alunos do 4.º E e do 4.º F dos professores Paulo Pereira e Daniel Santos, receberam a visita da professora Diana Felizardo.
Os alunos ficaram deslumbrados com a beleza e criatividade dos bonecos apresentados, construídos a partir de diversos materiais reutilizados.
A história escolhida foi "A confusão no alfabeto" da sua autoria e após a sua leitura, realizou algumas atividades relacionadas com a história, que cativaram a atenção dos alunos levando-os a participar nelas entusiasticamente.


No final, o aluno Noah Cardoso deu a sua opinião sobre a atividade:

- “Esta atividade foi cinco estrelas. Adorei!”

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

O AJUDANTE DO PAI NATAL


O Pai Natal conversa com a sua rena Amélia. Tem uma perna partida e está muito triste.

- Ó Amélia, mas como é que isto me foi acontecer? Eu ia a andar na neve e não consigo perceber como é que fui de encontro a uma árvore. Mas que grande desgraça! E como é que vou distribuir os presentes de Natal com a perna neste estado?

Sabes, Amélia, vou pôr um anúncio para arranjar um ajudante que saiba conduzir renas. Ainda bem que eu aprendi a utilizar o computador e a Internet, porque eu sou um Pai Natal muito moderno. Vou escrever um anúncio a dizer: “Urgente. Precisa-se de ajudante de Pai Natal que saiba conduzir renas. Paga-se pouco.” Pronto, já está.”

Passado algum tempo, batem à porta.

- Já tenho candidatos? Isto é que é rapidez! Amélia, vai abrir, por favor.

- Posso entrar, senhor Pai Natal? Sou eu, o Pateta. Vi o anúncio na Internet e vim logo a correr. Gostava de ser seu ajudante.

- Ó Pateta, acho que não te posso dar este trabalho. Tu és um bocado trapalhão e misturavas os presentes todos. Se calhar até partias algum. Além disso, sabes conduzir renas?

- Por acaso não sei conduzir renas e tem razão, sou um bocado trapalhão, mas ando a esforçar-me para melhorar.

E o Pateta afasta-se, um pouco aborrecido. Entra o Spongebob, muito contente. O Pai Natal sorri e diz-lhe:

- Ah! Nunca vi ninguém como tu! Pareces mesmo uma esponja!

- E sou uma esponja, até me chamam Spongebob.

- Ah! Pois é! Vi-te no outro dia na televisão. E sabes conduzir renas?

- Isso… é que não sei. Sei muita coisa, mas conduzir renas pelo céu, não devo ser capaz. Mas posso ir tirar a carta de condução de renas.

- Lamento, mas não dá para esperar. O Natal está a chegar. Se não sabes conduzir renas, não posso aceitar os teus serviços.

E o Spongebob vai-se embora.

Em seguida, entra a Bela Adormecida, de pijama e cheia de sono.

- Boa tarde, senhor Pai Natal, eu sou a Bela Adormecida e venho responder ao anúncio – diz ela, enquanto boceja.

- Ó minha querida, eu já percebi que a menina é a Bela Adormecida. Mas não lhe posso dar este trabalho. Então, a menina não sabe, que vai ter de dormir muitos anos, antes que apareça o príncipe para a acordar? Vá dormir para a sua caminha, durma bem, que depois falamos.

E a Bela Adormecida vai-se embora, continuando a dormir em pé.

Entretanto, é a vez do Homem-Aranha, que vem pendurado numa teia.

- Olá Pai Natal, sou o Homem-Aranha, como está o senhor, está melhor da perna? Eu vi o seu anúncio e vim para o ajudar. Posso ficar com o emprego?

- Agradeço, mas acho que não, acho que não! As tuas teias de aranha enrolavam-se aos presentes e, em vez de fitas e laços de Natal, ficavam cheias de teias. As pessoas até podiam pensar que eu tinha ido buscar presentes velhos ao meu sótão. Não pode ser.

Em seguida, aparece um Coelho aos saltos e a roer uma cenoura.

- Ó Amélia, quem é este? Um Coelho por aqui? Também queres ser meu ajudante?

- Sim, quero. Eu sou o Coelho da Páscoa e nunca assisti ao Natal. Porque o Natal nunca é na Páscoa. Por isso, quero ajudar-te e fazer parte desta época tão cheia de amor e de paz. Posso, por favor?

- Eu também nunca conheci um Coelho da Páscoa no Natal. A Páscoa nunca é no Natal! Acho que andamos sempre desencontrados. E tu sabes guiar o meu trenó e as renas?

- Claro que sim! E consigo dar saltos tão altos, que até posso chegar a todas as janelas, mesmo às mais altas. Como sou pequenino, posso entrar por todas as chaminés e pelas lareiras sem ficar lá entalado. Por favor, deixa-me fazer parte do Natal, deixas? Eu prometo que, na Páscoa, vou pedir também a tua ajuda. Vais ajudar-me a distribuir os ovinhos da Páscoa e as amêndoas a todas as pessoas. Mas não podes comer as guloseimas, ouviste?

O Pai Natal ficou muito feliz e exclamou:

- Eu nunca participei na Páscoa! Mas que ideia maravilhosa! Estás contratado! Já tenho motorista para o trenó e para as renas. Já posso distribuir os presentes, com o Coelho da Páscoa a ajudar.

E o Pai Natal muito feliz, começou a cantar lindas canções de Natal.




Diana Felizardo

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O PATO E AS AULAS DE NATAÇÃO


Viver natural


O Verão tinha chegado. No lago da quinta, as aulas de natação começaram com o habitual alvoroço. Os patos tinham de nadar bem e serem muito rápidos.

Os Patos e as suas Mães-Patas aguardavam na margem do lago que a professora chegasse. A Professora-Patareca, de pescoço bem esticado, olhou à sua volta e entrou, elegantemente na água. Atrás dela, foram os Alunos-Patos.

Uns alunos iam bem decididos, outros um pouco receosos, também havia alguns com pouca vontade de nadar e que bocejavam aborrecidos.

Porém, um dos Patos recusava-se a entrar na água. A Mãe-Pata bem se esforçava, empurrando-o, mas ele não conseguia.

A Professora-Patareca tentou igualmente que o Pato começasse a nadar. Mas sem resultado. Então, a mãe do Patinho explicou que o seu filho, embora fosse um pato e soubesse nadar bem, tinha medo de ir ao fundo e morrer afogado. E não conseguia entrar na água.

Os Professores-Patos reuniram-se para resolver o problema, consultaram as leis das aulas de natação e concordaram em deixar o Pato usar uma bóia, sempre que fosse nadar.

Enquanto os outros Patos nadavam para melhorar o seu estilo e serem mais rápidos, o Patinho ia tranquilamente pelo lago fora com a sua bóia, lutando contra o seu medo.

As Mães-Patas não gostaram muito do que viram.

Então o Patinho tinha uma bóia para nadar, enquanto os seus filhos tinham de se esforçar para atravessar o lago?! E iam todos ter o mesmo Diploma de Natação!?

A Professora-Pata bem lhes explicou que tudo estava a ser feito dentro da lei. O Patinho tinha direito a ter essa ajuda, para ultrapassar o seu medo.

As Mães-Patas não quiseram saber e, grasnando furiosas, destruíram a bóia.

O Patinho, com medo de ir ao fundo, não quis nadar mais. Mas os outros Patinhos, que eram seus amigos, ofereceram-lhe uma bóia nova.

Ele participou em todas as aulas e, com o tempo, foi perdendo o seu medo.

No final, também recebeu um Diploma de Natação, onde estava escrito o seguinte: “O Nadador-Pato participou com sucesso nas aulas de Natação, tendo usado uma bóia”.

As Mães-Patas resmungaram, mas ninguém lhes deu importância.

Obrigada Diana Felizardo

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

MIBE 2021 - VISITA DOS ALUNOS DO 1.ºCICLO DA ESCOLA BÁSICA DE PEDROUÇOS

Os alunos do 1.º e 2.º ano da Escola Básica de Pedrouços acompanhados pela professora Sara Fonseca e uma auxiliar e professoras Ana Azevedo e Joana Moreira visitaram a Biblioteca Escolar, uma turma de cada vez, para tomarem conhecimento do espaço.

- O que é uma Biblioteca? Para que serve? 
- Qual foi o livro que mais gostaste até agora?

Foi uma conversa muito interessante. Todos foram protagonistas e respeitaram o que o outro tinha a dizer, não interrompendo e esperando a sua vez de falar.




Ouviram o conto "Dá-me um abraço" de John A. Rowe" narrado pela professora bibliotecária.
Obrigada às professoras e alunos que corresponderam positivamente ao desafio lançado pela BE.
Prometeram voltar! 

terça-feira, 6 de julho de 2021

O SENTIDO DA VIDA

https://contadoresdestorias.wordpress.com/2017/01/29/o-sentido-da-vida/


Um dia, quando um sábio passava por uma estrada, deparou com um homem sentado na berma. O homem tinha um ar tão desolado que o sábio se deteve e lhe perguntou:

— O que o preocupa?

O homem respondeu:

— A minha vida nada tem de interessante. Como tenho dinheiro suficiente para não precisar de trabalhar, coloquei-o nesta mala e dispus- me a viajar pelo mundo. Ando em busca de algo que me devolva a alegria de viver, mas nada do que me dizem é novo, o que só contribui para aumentar a minha sensação de tédio.

Ao ouvir isto, o sábio agarrou na mala do homem e fugiu. Como conhecia bem a região, apanhou atalhos por campos e colinas, e rapidamente se distanciou dele.

Decidiu colocar a mala no meio da estrada e foi esconder-se atrás de uma rocha. Algum tempo depois, viu chegar o homem que, com gestos ansiosos, abriu a mala que lhe tinha sido roubada. Ao ver que o conteúdo estava intacto, ergueu os olhos para o céu e fez um gesto de agradecimento.

O sábio pensou para consigo: “Certas pessoas só entendem o valor de algo quando o perdem.”

Autor Desconhecido

quinta-feira, 24 de junho de 2021

RECANTOS, CANTOS E ENCANTOS...


Vamos ler?


Um raio de sol entrava pela varanda aberta da sala e pousava o seu brilho intenso sobre a estante que, de alto a baixo, forra de livros uma das paredes do corredor quase sempre sombrio .


A maravilha daquele fulgor inesperado produzia um efeito delicioso, quase palpável, que eu experimentava como uma dádiva ou uma revelação. Os livros, tocados assim pela luz, apeteciam mais do que nunca, e nunca o desejo de se darem a beber me havia parecido tão vivo.

Lamentei ter de me apressar para sair, mas a magia do instante perseguiu-me ao longo do dia. Ao chegar a casa, infantilmente, fui espreitar o corredor. Estava envolvido na sua meia-luz habitual. O visitante dourado tinha desaparecido, evidentemente, cumprindo a ordem irrefutável do relógio.

Passei os dedos ao correr dos livros em gesto de acariciar e pensei que é possível, sim! É possível que os poemas andem por aí dispersos, esperando que alguém os colha como frutos ou flores.

É que hoje eu vi um bem de perto. Estava pousado sobre os meus livros e não tive tempo de o apanhar.


Lídia Jorge

sexta-feira, 14 de maio de 2021

MAIS BONITO DO QUE AS SARDAS

wordpress.com


"As rugas deviam simplesmente indicar o lugar onde os sorrisos estiveram."

Mark Twain
Aconteceu um ano no Zoo. Eu e a minha filha estávamos ao lado de uma avó e de uma menina com a cara toda pintalgada de sardas vermelhas e brilhantes. As crianças faziam fila, esperando que uma artista local lhes pintasse as caras, decorando-as com patinhas de tigre.

— Tu tens tantas sardas que nem há sítio para pintar — berrou um rapaz da fila. Envergonhada, a pequenita ao meu lado baixou a cabeça.

A avó ajoelhou-se ao lado dela. — Adoro as tuas sardas — disse ela.

— Mas eu não! — respondeu a menina.

— Bem, quando eu era pequena só queria ter sardas — disse ela, passando o dedo pelas bochechas da criança. — As sardas são lindas!

A menina olhou para cima. — A sério?

— Claro — disse a avó. — Diz-me lá uma só coisa que seja mais linda que as sardas.

A pequenita examinou atentamente a cara sorridente da velha senhora. — As rugas — disse meigamente.

Aquele momento ensinou-me algo a partir de então. Se olharmos os outros com os olhos do amor, não veremos defeitos. Apenas beleza.

Sue Monk Kidd

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CONTO - LUGAR DE INFÂNCIA

Vamos recomeçar? São só 10 minutos...


Esta horta é um lugar de maravilha!

No sítio onde se guarda a lenha há teias de aranha, enormes: lembram uma toalha de renda!

O musgo cresce junto à nora, e o céu, ali, é um céu verde, feito da folhagem da maior nogueira que deve existir na terra. Porque o milagre maior é, realmente, esta nogueira.

Na horta há ainda outra coisa espantosa! Uma coisa que maravilha e não me canso de olhar: uma velhinha, a dona de tudo aquilo.

Tem cem anos de vida!
Cem anos!
Tem mesmo. De verdade.

Na primavera, quando o tempo está doce, as abelhas, as borboletas, as andorinhas, andam numa pressa, logo de manhã, e a filha, que também já é muito velha, pega numa cadeirinha que parece de brincar e senta-a debaixo da nogueira. Senta a velhinha de cem anos, que não se sabe bem se está acordada, se está a dormir, se está a pensar.

Logo que toca para o recreio, já disse, corro para lá. O Tomba-Lobos lambe-lhe as mãos e ela ri-se. Mas não diz nada. Faz-lhe só uma festinha, na cabeça.

À sua volta andam as aves e o perfume doce das laranjeiras em flor.
Então, eu sento-me na pedra do tanque. Sento-me e olho-a.

Olho-a muito. Parece uma raiz! Parece uma boneca pequenina! Parece um tronco que está à espera que lhe nasçam folhas e flores.
Já viu tantas estações do ano! Viu guerras e viu paz. Gente. Tanta gente. Searas a arder, gritos, casas a construírem-se, casas a ficarem só parede e memória.

Viu nascer trigo e papoilas, colher azeitonas e fazer azeite, camponeses a cantarem abraçados e tristes, no tempo do desemprego. O que ela deve ter visto!

Já foi pequenina como eu, mas não foi à escola porque, dantes, este largo não tinha escola: era apenas seara e árvores. De certeza que viu nascer esta nogueira. Viu-a crescer, dar frutos, tapar o sol de verde e aves.

Mexeu na terra, semeou coentros, couves, alfaces, plantou flores, deitou galinhas, viu nascer pintainhos, bezerros, teve filhos, netos, bisnetos, e sentou-se aqui, nesta sombra fresca durante os seus cem anos de história. Às vezes, toco-lhe nas mãos.

Os dedos dela parecem raízes!
Uma manhã, apanhei um malmequer e pus-lho no colo.

Ela pegou-lhe devagar, como se estivesse a ver o Sol nascer. Olhou para mim e era como se descobrisse o mundo pela primeira vez.

Sorriu.
Lá do fundo do tempo, arrancou uma voz fina, uma voz que não era voz: era vento, era chuva, era a água da nora sobre as avencas. E disse assim:

— Deem laranjas a esta menina!
Depois, adormeceu com o malmequer na mão.


E eu olhava-a e parecia-me que, sem ela ali, tudo ficaria incompleto e sem sentido naquele lugar de infância.

Maria Rosa Colaço, Maria tonta como eu, Distri Editora, s/d


sexta-feira, 17 de julho de 2020

UMA IDEIA TODA AZUL

Ler+ Para Ser+




Um dia o Rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda, e tão maravilhado ficou com aquela ideia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos, encontrando-a sempre com igual alegria, linda ideia dele toda azul.

Brincaram até o Rei adormecer encostado numa árvore.
Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia ter chamado a atenção de alguém.

Bastaria esse alguém pegá-la e levar. É tão fácil roubar uma ideia: Quem jamais saberia que já tinha dono? Com a ideia escondida debaixo do manto, o Rei voltou para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, saiu dos seus aposentos, atravessou salões, desceu escadas, subiu degraus, até chegar ao Corredor das Salas do Tempo.
Portas fechadas, e o silêncio. Que sala escolher? Diante de cada porta o Rei parava, pensava, e seguia adiante. Até chegar à Sala do Sono.

Abriu. Na sala acolchoada os pés do Rei afundavam até o tornozelo, o olhar se embaraçava em gazes, cortinas e véus pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre igual. O Rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta.

A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela. O tempo correu seus anos. Ideias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins.

Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto. Posta a coroa sobre a almofada, o Rei logo levou a mão à corrente. Ninguém mais se ocupa de mim — dizia atravessando salões e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo — ninguém mais me olha. Agora posso buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim.

Abriu a porta, levantou o cortinado. Na cama de marfim, a ideia dormia azul como naquele dia. Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o Rei não era mais o Rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo todo parado na Sala do Sono. Seus olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.

Sentado na beira da cama o Rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha guardado para a maior tristeza.

Depois baixou o cortinado, e deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a porta.

Marina Colasanti


sexta-feira, 26 de junho de 2020

A FELICIDADE ESTÁ NAS PEQUENAS COISAS


LER+ PARA SER+
Desfruta das pequenas coisas.
Um dia podem tornar-se as maiores da tua vida.

Robert Brault


Imagem partilhada contadoresdeestoriasworldpress


Era um daqueles dias de múltiplos afazeres e eu já estava atrasada nas tarefas de casa.
Há séculos que não ia ao supermercado e faltava quase tudo na despensa. A roupa para lavar empilhava-se, cada vez mais, no cesto, e a casa tinha ultrapassado os meus, bastante flexíveis, padrões de limpeza. Como se isto não bastasse, tinha de entregar dois artigos e precisava, por isso, de passar algum tempo diante do computador.
Os meus quatro filhos não tinham aulas naquele dia. Encantados por estar em casa, perguntavam-me, constantemente, o que iríamos fazer. Mas eu sabia que os meus planos os iam desapontar. Nenhum deles era divertido e especial.
Quando acordaram, deram-se conta de que não tinham as taças de cereais prontas, porque não havia leite. Só cereais secos… e eles não gostavam muito… Também não havia ovos ou pão, o que reduzia em muito as opções do pequeno-almoço. Bem procurei no congelador uma embalagem de waffles congeladas, mas não tive sorte. Acabei por encontrar um pacote de bolachas de manteiga. Reguei-as com açúcar e canela, pu-las no forno, e dei-as aos miúdos.
— Lamento não poder oferecer-vos algo de melhor, mas não tenho tempo para ir às compras.
Nem sequer responderam, demasiado ocupados que estavam a enfiar os rolinhos de canela improvisados na boca.
Depois do pequeno-almoço, pus uma máquina de roupa a lavar e sentei-me ao computador. A minha filha mais nova, Julia, veio ter comigo com uma cara de quem está prestes a chorar.
— Ó mãe, nós achávamos que hoje nos íamos divertir. É o nosso dia de folga!
— Sei que é o vosso dia de folga, mas não é o meu — respondi. — Tenho trabalho para fazer.
— Não podes brincar comigo aos cabeleireiros? — pediu.
Suspirei. Não tinha tempo para brincar, porque tinha trabalho urgente para fazer.
Foi então que tive uma ideia:
— E se brincássemos enquanto eu trabalho? — propus-lhe.
E foi assim que escrevi um artigo, enquanto ela me pintava as unhas dos pés.
O meu filho mais velho, Austin, ofereceu-se para fazer o almoço para eu poder continuar a trabalhar. Os mais novos ficaram encantados com as escolhas dele. Não que fossem dignas da pirâmide alimentar, mas eles gostaram e pude, assim, acabar o meu segundo artigo.
Pouco antes do almoço, fomos todos ao supermercado. O Austin empurrou o carro, enquanto os irmãos pegavam em cupões espalhados pela loja. Consegui comprar o que queria, mais alguns produtos extra selecionados pelos meus acompanhantes.
De volta a casa, os miúdos resolveram “brincar aos supermercados” com os cupões que tinham arranjado. Alinharam as latas nos balcões da cozinha e as refeições ligeiras na ilha central, e fingiram que estavam a vender o que tínhamos comprado.
Durante o resto da tarde, limpei a casa, dobrei a roupa, e comecei a fazer o jantar.
Os miúdos só interromperam o jogo com a chegada do pai.
Quando o meu marido, Eric, me viu, perguntou, com um sorriso rasgado:
— Então, que tal a folga de hoje?
Quando comecei a dizer que não tínhamos feito nada de especial, a Julia interrompeu-me:
— Pai, viste as unhas da mãe? Ela deixou-me sentar debaixo da mesa do computador e eu pintei-as enquanto ela escrevia. Foi tão divertido!
O Austin continuou:
— Hoje comemos o melhor pequeno-almoço de sempre! Já fizeste aquelas bolachas para o pai? Eram fantásticas!
O Eric olhou para mim, com um ar interrogador. Encolhi os ombros. Os meus filhos do meio, o Jordan e a Lea, revezaram-se a dizer ao pai que tinham jogado com os cupões e que o Austin tinha feito um almoço especial.
— Foi um dia ótimo, pai! Foi espetacular!

Olhei para as caras deles, cheias de entusiasmo. Entusiasmo com um pequeno-almoço a fingir, um almoço improvisado, cupões de um supermercado, e umas unhas pintadas.
— Tiveram mesmo um dia bom? Não ficaram desapontados por não termos feito algo de especial?
O Austin encolheu os ombros e disse:
— A vida é tão divertida quanto a fizermos!

Concordei com um aceno. A felicidade está mais na atitude do que nas circunstâncias. Abracei os meus filhos e agradeci-lhes por me lembrarem que devia procurar a felicidade nas pequenas coisas. A Julia sorriu e disse:
— São as pequenas coisas que nos fazem mais felizes, não são, mãe?
Os meus filhos são mesmo inteligentes…
Diane Stark


terça-feira, 16 de junho de 2020

A ÁRVORE DOS LAMENTOS

 https://contadoresdestorias.wordpress.com/2019/03/13/a-arvore-dos-lamentos/


Numa pequena aldeia da Polónia vivia um rabino dotado de grande sabedoria. Os seus seguidores gostavam muito dele e vinham contar-lhe os seus desgostos com frequência. Passado algum tempo, o rabino cansou-se de ouvir as pessoas dizerem que os seus infortúnios eram maiores do que os dos seus vizinhos. Estavam sempre a fazer perguntas do género “Por que não sofre ele como eu sofro?”;“ Por que não tem ela um marido enervante como o meu?”; “Por que não tem ele uma mulher preguiçosa como a minha?”; “ Por que não tem ela dores de costas?”; “ Por que não vivem os filhos dele em casa sem contribuírem para as despesas como os meus fazem?”
Os queixumes continuaram de tal forma que o rabino teve uma ideia e anunciou a todos que iria ser celebrado um novo feriado.

─ Tragam os vossos infortúnios todos. Tragam-nos num saco com o vosso nome e pendurem-no na árvore grande que está no centro da aldeia. Assim, todos poderão trocar os seus fardos pelos dos vizinhos.

Os aldeões ficaram todos excitados, a pensar no quão mais fáceis as suas vidas iriam ser no futuro. Quando o dia chegou, colocaram-se todos debaixo da árvore com os sacos na mão. Ataram-nos aos ramos baixos com pedaços de corda para que as outras pessoas os pudessem inspecionar. 

─ Agora ─ anunciou o rabino numa voz pomposa ─ podem examinar os sacos e ver que fardos dos vossos vizinhos querem levar para casa em troca dos vossos.
Os aldeões precipitaram-se para a árvore e começaram a vasculhar nos sacos. Uns após outros, todos foram revistados. Os aldeões continuavam a circular.
Finalmente, mais cansados e mais sábios, pegaram cada um no seu saco e foram para casa. O rabino sorriu. Tal como ele esperava, os aldeões tinham visto os infortúnios dos outros e tinham decidido não trocar os seus problemas pelos deles. Os seus, pelo menos, já lhes eram familiares.


rabino- professor, mestre

(tradição judaica)

Elisa Davy Pearmain (edited by)
Doorways to the soul
Cleveland, The Pilgrim Press, 1998
(Tradução e adaptação)


quinta-feira, 4 de junho de 2020

A HISTÓRIA DA MENINA E DAS AMEIXAS DO SENHOR FERREIRA

imagem partilhada da wordpress

Certa vez, uma menina estava a brincar no jardim. Brincava sozinha porque nesse dia a mãe tinha muito que fazer. Só de vez em quando é que a olhava pela janela e ficava contente por ver a filha a brincar tranquilamente.

Nisto, o Sr. Ferreira e a esposa desceram ao jardim deles. A D.ª Ana trazia dois cestos e o Sr. Ferreira carregava uma escada, dirigindo-se ambos para a grande ameixoeira que tinham no jardim. A menina correu rapidamente para a vedação e ficou a vê-los.

— O que é que estão a fazer? — gritou, ao ver o Sr. Ferreira encostar a escada à árvore.

— Vou subir à árvore — respondeu o vizinho acenando-lhe com a mão.

— E depois?

— Depois vou colher as ameixas — retorquiu, e começou a subir a escada.

A D.ª Ana ficou em baixo a olhar.

— Tem cuidado! — gritou.

— Ele não cai — acalmou-a a menina. — E, se cair, a minha mãe leva-o imediatamente ao hospital no nosso carro. — Posso ir para a vossa beira? — pediu, e, de seguida, chamou a mãe em voz alta.

— Posso ir um bocadinho para o jardim da D.ª Ana? — perguntou quando ela apareceu à janela.

— A pequenita não incomoda? — perguntou a mãe.

— De maneira nenhuma! — exclamou o Sr. Ferreira.

Só então é que a mãe o descobriu em cima da ameixoeira.
A menina transpôs a vedação e começou imediatamente a ajudar a D.ª Ana, que apanhava as ameixas que caíam da árvore, mas tinha dificuldade em curvar-se.

— Espere, D.ª Ana, eu ajudo! — e apanhou rapidamente as ameixas todas.

Eram cada vez mais, pois o Sr. Ferreira não só colhia como também sacudia os ramos e fizera cair muitas. De seguida, ele desceu da escada com dois baldes cheios e despejou-os num cesto. Um destes já estava quase cheio também.
Colheram e despejaram, até encherem dois cestos. A D.ª Ana foi a casa buscar mais dois. Acabaram por encher quatro e a grande ameixoeira ficou sem frutos.
A menina ajudou a apanhar as ameixas que tinham caído.

— Muito obrigado! — disse o Sr. Ferreira no fim, ao levar os cestos para a cave com a ajuda da mulher.

A menina já não pôde ajudá-los porque os cestos eram muito pesados. O Sr. Ferreira pegava num lado e a mulher no outro, esbaforida.
No fim, o Sr. Ferreira tirou o porta-moedas do bolso das calças e quis dar algum dinheiro à menina.

— Deste-nos uma ajuda tão grande!

Mas a menina abanou a cabeça, passou rapidamente a cerca e regressou ao seu jardim.

— Muito obrigada! — gritou-lhe a D.ª Ana.

E a pequenita ficou contente ao ouvir aquilo.
À noite, quando a menina e os pais estavam à mesa a jantar, tocaram de repente à campainha.
A D.ª Ana entrou com um grande bolo de ameixa, redondo, fresco e com muito açúcar por cima. A menina ficou tão contente que, nessa noite, não comeu nem queijo nem fiambre, nem doce nem requeijão com ervas.
Só comeu bolo de ameixas.
Comeu ela e comeu toda a família.
E pouco sobrou, pois estava delicioso!


Rolf Krenzer, Freue Dich auf jeden Tag


terça-feira, 2 de junho de 2020

UMA IDEIA TODA AZUL

LER+PARA SER+
imagem partilhada da wordpress
Um dia o Rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda, e tão maravilhado ficou com aquela ideia azul, que não quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos, encontrando-a sempre com igual alegria, linda ideia dele toda azul.

Brincaram até o Rei adormecer encostado numa árvore.

Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e tão bonita, a ideia poderia ter chamado a atenção de alguém.

Bastaria esse alguém pegá-la e levar. É tão fácil roubar uma ideia: Quem jamais saberia que já tinha dono? Com a ideia escondida debaixo do manto, o Rei voltou para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, saiu dos seus aposentos, atravessou salões, desceu escadas, subiu degraus, até chegar ao Corredor das Salas do Tempo.

Portas fechadas, e o silêncio. Que sala escolher? Diante de cada porta o Rei parava, pensava, e seguia adiante. Até chegar à Sala do Sono.

Abriu. Na sala acolchoada os pés do Rei afundavam até o tornozelo, o olhar se embaraçava em gazes, cortinas e véus pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre igual. O Rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta.

A chave prendeu no pescoço em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela. O tempo correu seus anos. Ideias o Rei não teve mais, nem sentiu falta, tão ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas, sentia-se mais triste e mais só, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins.

Só os ministros viam a velhice do Rei. Quando a cabeça ficou toda branca, disseram-lhe que já podia descansar, e o libertaram do manto. Posta a coroa sobre a almofada, o Rei logo levou a mão à corrente. Ninguém mais se ocupa de mim — dizia atravessando salões e descendo escadas a caminho das Salas do Tempo — ninguém mais me olha. Agora posso buscar minha linda ideia e guardá-la só para mim.

Abriu a porta, levantou o cortinado. Na cama de marfim, a ideia dormia azul como naquele dia. Como naquele dia, jovem, tão jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o Rei não era mais o Rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado lá fora, o tempo todo parado na Sala do Sono. Seus olhos não viam na ideia a mesma graça. Brincar não queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.

Sentado na beira da cama o Rei chorou suas duas últimas lágrimas, as que tinha guardado para a maior tristeza.

Depois baixou o cortinado, e deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a porta.

Marina Colasanti

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A VERDADEIRA E MARAVILHOSA HISTÓRIA DO DRAGÃO SAMUEL DE JOSÉ FANHA

LER+PARA SER+
Um conto por dia não sabe o bem que lhe faria


imagem partilhada a partir do wordpress

Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões. Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões.

Na aparência geral, Samuel era um bebé lindo e sem nenhum defeito. Muito verde, tinha umas lindas escamas a cobrirem-lhe o corpo, uns olhos enormes, vermelhos e flamejantes, como é normal entre os dragões. Quando começou a crescer é que as coisas se tornaram muito complicadas para o nosso pobre Samuel.

Como nós sabemos, desde pequeninos que os dragões aprendem a meter medo às pessoas e aos outros animais. E para isso não lhes basta ser verdes e horrendos. Todos os dias têm de comer enormes quantidades de carvão para, depois, deitarem pela boca grandes labaredas que queimam tudo em redor e mantêm à distância os homens e todos os outros animais.

Todos os dragões eram assim. Todos menos o Samuel. O nosso pequeno dragãozinho era igual aos outros dragões em tudo menos numa coisa. Não era capaz de comer carvão. Nem de o cheirar. Mal lhe chegava à boca tinha vómitos e tonturas. Samuel, o pequeno dragãozinho só gostava de comer nuvens. A princípio ninguém deu grande importância ao assunto. Mas, quando chegou à idade de aprender a deitar labaredas pela boca, foi com grande espanto que os pais e todos os outros dragões se aperceberam de que o Samuel, em vez de fogo, deitava rios e rios de água pela boca.

O pobre do Samuel tornou-se alvo da risota de todos os outros dragõezinhos da sua idade. Todos se riam dele e o empurravam e diziam que ele nunca havia de ser um dragão como deve ser. Samuel, o pequeno dragãozinho, vivia muito infeliz. Queria ser igual aos outros e deitar fogo e queimar tudo em redor como faziam os seus camaradas de escola. Mas não era capaz. Só sabia deitar água pela boca. Um fiozinho fino e delicado de água que em vez de assustar as árvores e os arbustos só lhes dava alegria e felicidade.

Definitivamente, Samuel não era um dragão como todos os outros.

Um dia, o Conselho dos Velhos Dragões resolveu mandar chamá-lo. Samuel apresentou-se cheio de medo perante aquele friso solene de velhos dragões onde pontuavam os mais sábios, os mais valentes e os mais fortes de todos os dragões. O mais velho olhou para ele e com a sua voz de trovão ribombante perguntou-lhe severamente:

— É verdade que tu, em vez de fogo, deitas água pela boca?
— É sim… — respondeu Samuel, que não era capaz de mentir mas sentia as pernas a tremer e o chão a tremer e o céu parecia mesmo que ia cair-lhe em cima da cabeça.


Os velhos dragões olharam uns para os outros, desataram a falar baixinho e depressa, e tomaram uma terrível decisão: resolveram expulsá-lo para sempre do país dos dragões. Triste e muito solitário, o pobre dragãozinho Samuel teve de abandonar a sua terra e foi pelo mundo fora sem ter casa para onde voltar, nem cama onde dormir nem sopa quente que o espe­rasse à noite.

Correndo mundo, passaram-se muitos anos. Samuel vagueava por montes e florestas sem meter medo a ninguém, comendo uma nuvem aqui, outra acolá, deitando água pela boca e tornando-se no amigo preferido das gazelas, dos patos, dos peixes e de todos os animais que vivem ao pé da água.

Entretanto, na terra de onde tinha vindo Samuel, os dragões continuavam a comer carvão e a deitar labaredas pela boca. E tanto carvão comeram, e tanto fogo espalharam à sua volta que, a pouco e pouco, acabaram por queimar tudo em seu redor. As flores murcharam, árvores morreram, os rios secaram e o país dos dragões tornou-se num deserto.

Sem flores, nem árvores, nem rios, os dragões perceberam que iam acabar por morrer.

O seu fim aproximava-se a passos largos e o desespero era já muito grande quando um dos dragões mais velhos e mais sábios se lembrou do Samuel, o dragão que deitava água pela boca e que por isso mesmo tinha sido expulso para sempre daquela terra. Só ele é que podia salvar os dragões. Partiram vários emissários que correram montes e montanhas, vales e florestas até que encontraram o dragão Samuel.

Não foram precisos muitos pedidos para fazer o dragão Samuel voltar. É verdade que sentiu uma dor no peito quando encontrou de novo aqueles que o tinham expulsado da sua terra. Mas, como não era capaz de guardar raiva no coração, dispôs-se a ajudar os seus irmãos.

O dragão Samuel desatou a comer nuvens e a deitar água pela boca. E, num ápice, inundou de água o país dos dragões. Os lagos voltaram a encher-se, os rios voltaram a correr caudalosos, as árvores voltaram a crescer grandes e frondosas, as flores voltaram a sorrir ao orvalho da manhã.

Os dragões não tinham ficado muito diferentes. Continuavam a deitar fogo pela boca. Se não o fizessem não eram dragões. Mas aprenderam a não queimar mais árvores do que aquelas que eram necessárias e, assim, não deixar a água chegar ao fim.

Encontrado o equilíbrio, os dragões viveram de novo felizes e, no meio de um lago redondo, ergueram uma estátua de homenagem ao dragão Samuel. Da boca da estátua sai um fio de água que está sempre a correr, e aos domingos todos os dragões vão atirar bolinhas de pão aos peixes vermelhos que nadam em redor, muito satisfeitos.


FANHA, José, A noite em que a noite não chegou, Porto, Campo das Letras, 2001


in https://contadoresdestorias.wordpress.com/2016/12/17/a-verdadeira-e-maravilhosa-historia-do-dragao-samuel/

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A ARTE DE SER FELIZ DE CECÍLIA MEIRELES

LER+PARA SER+

UM CONTO POR DIA NÃO SABE O BEM QUE LHE FARIA

imagem partilhada a partir do wordpress

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

Escolha o Seu Sonho – Crónicas, 2016



sábado, 9 de maio de 2020

MAIS BONITO DO QUE AS SARDAS

Ler+Para Ser+




"As rugas deviam simplesmente indicar o lugar onde os sorrisos estiveram."

Mark Twain


Aconteceu um ano no Zoo. Eu e a minha filha estávamos ao lado de uma avó e de uma menina com a cara toda pintalgada de sardas vermelhas e brilhantes. As crianças faziam fila, esperando que uma artista local lhes pintasse as caras, decorando-as com patinhas de tigre.

— Tu tens tantas sardas que nem há sítio para pintar — berrou um rapaz da fila. Envergonhada, a pequenita ao meu lado baixou a cabeça.

A avó ajoelhou-se ao lado dela. — Adoro as tuas sardas — disse ela.

— Mas eu não! — respondeu a menina.

— Bem, quando eu era pequena só queria ter sardas — disse ela, passando o dedo pelas bochechas da criança. — As sardas são lindas!

A menina olhou para cima. — A sério?

— Claro — disse a avó. — Diz-me lá uma só coisa que seja mais linda que as sardas.

A pequenita examinou atentamente a cara sorridente da velha senhora. — As rugas — disse meigamente.

Aquele momento ensinou-me algo a partir de então. Se olharmos os outros com os olhos do amor, não veremos defeitos. Apenas beleza.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

PAUZINHOS DE MARFIM

LER+ PARA SER+

imagem partilhada a partir do wordpress


Na China antiga, um jovem príncipe resolveu mandar fazer, de um pedaço de marfim muito valioso, um par de pauzinhos. Quando isto chegou ao conhecimento do rei seu pai, que era um homem muito sensato, este foi ter com ele e explicou-lhe:

— Não deves fazer isso, porque esse luxuoso par de pauzinhos pode levar-te à perdição!

O jovem príncipe ficou confuso. Não sabia se o pai falava a sério ou se estava a brincar. Mas o pai continuou:

— Quando tiveres os teus paus de marfim, verás que não ligam com a loiça de barro que usamos à mesa. Vais precisar de copos e tigelas de jade. Ora, as tigelas de jade e os paus de marfim não admitem iguarias grosseiras. Precisarás de cauda de elefante e fígado de leopardo. E quem tiver comido cauda de elefante e fígado de leopardo não vai contentar-se com vestes de cânhamo e uma casa simples e austera.


Irás precisar de fatos de seda e palácios sumptuosos. Ora, para teres tudo isto, vais arruinar as finanças do reino e os teus desejos nunca terão fim. Depressa cairás numa vida de luxo e de despesas sem limite. A desgraça irá atingir os nossos camponeses, e o reino afundar-se-á na ruína e desolação… Porque os teus paus de marfim fazem lembrar a estreita fissura no muro de uma fortaleza, que acaba por destruir toda a construção. 

O jovem príncipe esqueceu o seu capricho e mais tarde veio a ser um monarca reputado pela sua grande sensatez.

Conto do filósofo chinês Han Fei,

oito séculos antes da nossa era.


segunda-feira, 27 de abril de 2020

A SENHORA É RICA?


LER+ PARA SER*


imagem partilhada a partir do wordpress

As duas crianças, de casacos gastos e já demasiado pequenos, encolheram-se junto à porta:

— Por favor, a senhora tem alguns jornais velhos?

Eu estava muito ocupada. Apeteceu-me dizer-lhes que não, mas, ao ver que traziam umas simples sandálias encharcadas de neve derretida, convidei:

— Entrem. Vou preparar uma chávena de chocolate quente para cada um.

A conversa ficou por ali.

E as sandálias molhadas deixaram marcas no soalho da sala.

Servi-lhes o chocolate quente e umas fatias de pão barradas com geleia para lhes dar forças, porque, lá fora, estava muito frio.

Depois, voltei para a cozinha, e continuei a calcular o meu orçamento… O silêncio que reinava na sala surpreendeu-me. Fui espreitar. A menina olhava para a chávena vazia, que segurava com as duas mãos. Com uma voz muito meiga, o rapazinho perguntou-me:

— A senhora… é rica?

— Rica… Eu? Credo! Não!

E reparei nas capas gastas dos meus sofás.

A menina pousou a chávena no pires, muito devagarinho.

— As suas chávenas combinam com os pires.

A voz não parecia a de uma menina. Era uma voz cansada, e traduzia uma fome que não era a do estômago.

Foram-se embora, segurando os maços de jornais e caminhando contra o vento. Não me agradeceram. Mas não tinha importância. Eu é que me sentia grata. As minhas chávenas e os meus pires em faiança azul não tinham nada de especial, mas combinavam.

Fui picar as batatas para ver se estavam cozidas e mexi o molho. Batatas com molho, um teto, um marido com um bom emprego, estável. Estas coisas também combinam bem.

Afastei os sofás da lareira e arrumei a sala. As marcas enlameadas ainda estavam frescas no meu coração. Deixei-as lá ficar. Quero que aí permaneçam, para o caso de alguma vez esquecer até que ponto sou rica.

Marion Doolan